A Ilha

ilha

Por.: Márcio Renato Bordin

 

Diego acorda com o corpo todo suado.

-Que pesadelo terrível- ele pensa em voz alta.

Quando vai se levantar, percebe que estranhamente estava dormindo em uma rede velha, suas roupas estão um trapo, todo roto; olha para os lados, seu quarto?!? Não está mais em seu quarto, ele acordou dentro de uma choupana aparentemente abandonada; teias de aranha por todos os lados; vasos de argila quebrados, poeira e mais poeira.

Está fazendo um calor de rachar, Diego procura por água, sua cabeça gira confusa, tenta entender o que está acontecendo, como que ele foi parar ali, nada faz sentido.

Olha em um canto da choupana, um vaso inteiro, talvez esse tenha água; sua garganta está em chamas; Diego pega-o e chacoalha, sim, tem algo líquido aqui, mas o cheiro está horrível; joga um pouco no chão de areia para conferir o que tem dentro, é um liquido grosso, vermelho escuro, fedorento… É sangue, junto com o sangue cai do interior do vaso algo meio redondo, de inicio não dá para ver direito o que é; Diego pega um galho e limpa o sangue e a areia que grudou na estranha bola ao cair…  Meu Deus! É um olho humano.

Apavorado, o rapaz deixa o vaso cair, derramando todo o sangue sujo de dentro e vários olhos humanos; lembra-se de sua mulher e seus filhos; os procura desesperadamente; corre pra fora da choupana; o céu parece em chamas, sente como se sua pele pegasse fogo, seus pés descalços pisam em uma areia fervente como lava, seus joelhos dobram, ele chora, precisa ficar em pé, rastejando Diego continua procurando por sua esposa e seus três filhos; ao longe ele avista algumas árvores, talvez eles estejam em baixo de suas sombras se escondendo desse sol escaldante. 

Mas Diego procura, grita pelos nomes e não ouve resposta; tudo levava a crer que ele estava só e pelo jeito estava no inferno. Diego se senta encostando-se ao pé de uma das enormes árvores, tentando se lembrar dos últimos acontecimentos que ocorreram no dia anterior, antes de se deitar para dormir em seu quarto ao lado de sua esposa; lembrou-se que estava em uma festa havaiana, bebeu muito, dançou com algumas dançarinas contratadas para animar a festa, elas até juravam de pés juntos serem mesmo havaianas, se fosse uma festa do dia das bruxas, elas jurariam ter 300 anos cada; lembrou também de ter discutido com sua esposa por causa dessas dançarinas, foi um pouco mais além de uma discussão, ela lhe deu um tapa e Diego lhe retribuiu o carinho; um garçom que também estava vestido de havaiano entrou na briga para acalmar as coisas, mas foi agredido por Diego com um soco no queixo; o agressor foi seguro pelos seguranças da festa, e o pobre garçom pegou sua bandeja do chão, olhou nos olhos de Diego e sussurrou algumas palavras desconhecidas por ele:

-Libo gabi sa ang impiyerno.

-Só pode estar me ofendendo- Diego pensou no momento, mas agora, em sua lembrança, as palavras do garçom estão tendo sentido:

                -“Mil noites no inferno”. Foi isso que aquele maldito disse; será que estou no inferno? Só pode ser isso; esse calor, o céu, essa sede e nenhuma água…

Diego, com todo seu tormento, não tinha antes prestado atenção no som que vinha de suas costas, é o som do mar, ele se levanta e corre, saindo de baixo da sombra das arvores e voltando ao sol em chamas, pisando nas areias que lhe queimavam a sola dos pés deixando em carne viva, mas ele corria quase que se rastejando em direção à aquele som…

Enfim, seus olhos vêem ao longe, é mesmo o mar, mas conforme ia se aproximando, esse mar se tornava vermelho, é só o reflexo desse céu estranho e castigador; como se carregasse o mundo nas costas, sentindo toda a força da natureza empurrando seu corpo ao solo, ele resiste e, chega à margem das águas do mar; não é o reflexo do céu que a deixou vermelha, é um mar de sangue… Diego cai de joelhos, lágrimas escorrem de seu olhos, de braços abertos, ele olha para o céu e aos berros repete a pergunta que não quer se calar em sua cabeça:

-Por quê??? Diz-me o por quê???

Nada, nenhuma resposta; ele se levanta, tentando manter o corpo ereto, olha para todos os lados e onde seus olhos alcançavam só existia aquela areia cercada por sangue, de repente ele nota algo se movendo em baixo daquele liquido rubro, parece que são pessoas lhe acenando, fixa a vista já cansada e distorcida pelo sol, as imagens começam a ganham uma forma…

-Meu Deus o que é isso?

São pessoas presas pelo pé ao fundo desse mórbido oceano, porém elas estão vivas, acenando com as mãos para Diego, mas não parecem pedir por ajuda e sim o estão chamando; Diego olha diretamente no rosto de algumas dessas pessoas, algumas parecem sofrer, outras estão rindo, felizes.

– Será que a dor deles é menor que a minha? – Ele se questiona.

Dá alguns passos em direção ao mar de sangue, ele quer se juntar à elas, quer parar de sofrer, estão lhe chamando e suas pernas querem obedecer ao chamado, mas ele reluta, lembra-se que debaixo das árvores o sol não lhe castigava tanto, a sede ainda lhe ardia a garganta, porém nesse momento esse era o menor de seus males.

Longos minutos de caminhada que pareciam horas, Diego retorna a sombra das arvores, senta-se ao pé de uma delas novamente, chorando, seus olhos inchados se viram para o alto, nos galhos, quatro corpos dependurados, enforcados, corpos sem os olhos, os corpos de sua mulher e de seus três filhos…

-Nããããooo!!!

Ele grita em desespero, seu grito é ouvido pela enfermeira do manicômio, ela adentra ao quarto correndo acompanhada de outros dois enormes enfermeiros que o seguram enquanto ela lhe aplica uma injeção no braço. Diego sente seu corpo pesado, pouco à pouco o sono vai lhe tomando por completo, mas consegue ouvir a voz daquela enfermeira comentar com os outros dois rapazes:

-Ele assassinou a mulher e os filhos, foi algo brutal, arrancou os olhos de toda a sua família enquanto vivos e depois os enforcou…

Diego acorda com o corpo todo suado.

-Que pesadelo terrível- ele pensa em voz alta.

Quando vai se levantar, percebe que estranhamente estava dormindo em uma rede velha, suas roupas estão um trapo…

Sobre Márcio Renato Bordin

Não sou ninguém. Vivo em lugar nenhum. Ver todos os artigos de Márcio Renato Bordin

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