Pela Janela Aberta

Pela Janela Aberta

 

Márcio Renato Bordin

 

 

Pela velha janela aberta, Isabel observa insistentemente o horizonte, onde repousam centenários eucaliptos ladeando a estreita estradinha de terra que se finda ao longe. A paisagem somada à belíssima lua cheia resulta numa pintura de beleza indizível, moldurada pela fenestra do abandonado casebre onde ela aguarda por seu amado.

Por varias vezes ela olha o relógio de ouro preso pela corrente em seu pulso. Os ponteiros quase estáticos caminham vagarosamente.

Ah, os ponteiros, malditos soldados do tempo. Algozes mestrados em psique humana. Céleres quando se pede que o tempo pare e vagueiam quando se quer que ele simplesmente passe. Assim são os ponteiros, os malditos soldados do tempo. Isabel sente-se torturada por esses impiedosos soldados em sua marcha vagarosa como se pairassem na eternidade.

Sentada em um banco de madeira quase que dissipado pelo tempo, ela se mantém inerte na tentativa de não amarrotar o belo vestido de noiva que está usando, fato usado por sua mãe quando se casou com um riquíssimo e respeitado fazendeiro de café do interior de São Paulo. Meses depois ela engravidou da doce Isabel e infelizmente falecera em seu parto. Desde então a garota fora criada pela governanta, e por seu amargurado e inescrupuloso pai. Cresceu como quem cresce em uma redoma de cristal, longe de tudo e de todos, principalmente dos empregados da fazendo de café onde vivia. Apenas a governanta Berenice e sua filha Mauren tinham permissão para se aproximarem da garota. Seu pai, Coronel Machado, famoso por sua crueldade para com seus funcionários, escravos brancos, como ele os chamava, mandava chibatar qualquer um que ousasse olhar para sua única filha com cobiça, e para ele, todo olhar dirigido a ela havia sempre algum desejo contido. Inúmeros foram os açoitados amarrados ao tronco até que o braço do coronel começasse a doer.

Com a maioridade alcançada, não suportando mais ver tanta ferocidade no coração de seu próprio pai, e por saber que por muitas das vezes era por sua causa que esses pobres coitados apanhavam, Isabel decidiu se mudar para a casa dos padrinhos na capital com o pretexto de estudar. De inicio o coronel Machado fora enfaticamente contra a decisão de sua filha, mas percebeu que ela estava disposta a partir mesmo contra sua vontade, e pensar que enfim Isabel estaria longe dos peões da fazenda, o fez mudar de idéia. Com a condição de que Mauren, filha da governanta, fosse junto de Isabel e prometesse mantê-lo informado sobre todos os passos da garota. Isabel quase não se conteve de alegria ao ouvir a condição imposta por seu pai, era tudo que ela queria, já que as duas são praticamente irmãs, tinham poucos meses de diferença na idade, cresceram juntas na fazenda, cúmplices de todas as peripécias infantis, e além das traquinagens que as duas juntas aprontavam, eram também unidas pelo melancólico sentimento da ausência de uma das partes genitoras, Isabel é órfã de mãe, Mauren é órfã de pai desde os oito meses de vida, seu progenitor, braço direito do patrão, fora estranhamente assassinado em uma tocaia poucos meses após o falecimento da mãe de Isabel. As más línguas dizem que foi o próprio coronel Machado quem mandou matá-lo, para que a governanta ocupasse o lugar de sua falecida esposa na casa e na educação da filha, alguns ainda ousam em dizer que ela ocupara o lugar da patroa na cama do coronel também, mas os mais afoitos que chegaram ao ponto de fazer esse vil comentário em publico misteriosamente desapareceram da fazenda sem deixar noticias sobre os paradeiros.

Por três anos inteiros, Isabel e Mauren viveram na emergente capital paulista. Duas jovens garotas vivendo sozinhas na poética São Paulo dos anos trinta. Estudaram, passearam, conheceram muita gente nova, em geral amigos ou amigos dos amigos do pai de Isabel. Políticos interessados em agradar a filha de um poderoso e influente fazendeiro. Sempre tratavam de incluir o nome da jovem para as festas e saraus que promoviam. Isabel e Mauren viveram em três anos tudo que não viveram na época da fazenda sob a vigília do coronel. Mas como nada dura para sempre, a noticia de uma enfermidade repentina que conseguira deixar o sempre vistoso coronel de cama, obrigou as duas jovens a fazerem as malas às pressas e voltarem para a fazenda.

Ao chegarem à estação de trem, na cidade que há tempos não viam. As duas garotas atrapalhadas com o montante de malas, mal conseguiam passar pela porta de saída do vagão donde estavam. Riam delas mesmas, quando a alegria fora interrompida pela voz de um jovem rapaz. Parado em pé na plataforma com as mãos estendidas em direção às duas.

– Deixa-me ajudá-las, senhoritas.

É nesse momento que os olhos se encontram. O mundo pára e Isabel sente estranhamente seu coração disparar e suas pernas tremerem. Aquele rapaz de nítida descendência índia e beleza exótica despertara na garota um sentimento até então desconhecido por ela, um querer conhecer, saber… Um mistério com doce sabor de desejo…

– Deixa-me apresentar-me, meu nome é Juan, trabalho para vosso pai na lida com os peões, como ele está acamado confiou-me a tarefa de recebê-las na estação e acompanhá-las até a fazenda.

– Ah, entendi! Você é o novo capataz. – Isabel desdenha, pois sabe muito bem que um capataz de seu pai é tão vil e rude quanto ele próprio ou por muitas vezes, pior.

– Não exatamente, senhorita Isabel. Meu pai é o verdadeiro capataz, porem com o coronel enfermo e meu pai lidando com os peões, a incumbência de buscá-las, coube a mim. Mas, não se preocupe, não sou do mesmo jaez de ambos, se é isso que te incomoda, e, se me permite a indiscrição, acompanhá-las até vossa morada nesta tarde de sol, é mais uma satisfação do que meramente um encargo.

Isabel acanhada, apenas sorriu sem jeito com o inusitado galanteio do rapaz. Mauren percebendo o clima que se estabeleceu no ar e sabendo muito bem qual seria a reação do Coronel se tomasse conhecimento do súbito interesse de Juan por Isabel e dela por ele, tratou logo de interromper a conversa e pôs-se a perguntar sobre as novidades da cidade e da fazenda.

Por todo o caminho, Juan falou sobre as mudanças ocorridas na cidade desde sua chegada. E por todo o caminho, Isabel nada ouviu. Enquanto o rapaz contava e relatava todas as novidades, Isabel apenas observava sua boca se mexendo, o desenho que formava ao pronunciar cada palavra, o modo como sorria, e principalmente, o modo como seus olhos se fixavam nos olhos dela por breves segundos no intervalo de cada frase. Ele tentava disfarçar seu interesse pela patroa, conhecia as estórias sobre os que ousaram olhar pra ela com interesse, mas era inevitável. A beleza de Isabel é de uma pureza inexplicável. Pura, doce, e, ao mesmo tempo dona de um olhar penetrante, beirando o hipnótico. Um sentimento tão belo quanto perigoso sorrateiramente vai invadindo e ocupando o coração desses dois jovens. Mauren até que tenta intervir, porem, em vão. Suas tentativas foram ignoradas, suas palavras não foram ouvidas. Tudo que ela pode fazer agora é rezar para que o pior não aconteça.

Ao chegarem à fazenda, Isabel corre ao quarto do coronel, e pela primeira vez na vida ela presencia o robusto coronel Machado debilitado numa cama. Ela se ajoelha ao lado do pai, sussurrando em seu ouvido:

– Estou aqui, papai. – ela segura as mãos enormes e suadas do coronel entre as suas mãos pequenas.

– Isabel?!?

– Sim, sou eu. Vim assim que soube.

– É bom vê-la de novo minha filha. Pena que o motivo que a trouxe de volta não tenha sido a saudade desse seu velho pai!

– Deixa de ser bobo, papai. Sabe que eu te amo muito. Eu estava morrendo de saudades de você e da vida na fazenda, sim. Mas confesso que não perderia por nada a oportunidade de ver o imponente coronel Machado nocauteado pela saúde.

Ele esboça um sorriso, mas está nitidamente fraco até mesmo para ostentar um sorriso nos lábios.

– Descanse agora, papai. Vou desfazer minhas malas, e depois vou procurar o doutor e ver o que ele tem a me dizer sobre você. – Isabel beija a testa suada do coronel, notando que a temperatura está excessivamente alta. Levanta-se e caminha em direção a saída do quarto parando próximo à governanta que esta em pé ao lado da porta, perguntando:

– O que o doutor disse?

– Nada, o Dr. Soriano não conseguiu diagnosticar o que seu pai realmente tem, mas pediu para você procurá-lo assim que chegasse à fazenda. Talvez, ele queira revelar a verdadeira situação da saúde do coronel primeiramente à pessoa da família. Espero mesmo estar errada. Se eu estiver certa, é porque a situação é mais grave do que aparenta.

– Bom, sendo assim. Vou primeiro procurá-lo e depois desfaço minhas malas.

– Vá! Fale com o doutor. Deixe que Mauren e eu cuidemos de sua bagagem.

– Não precisam se incomodar. Nesse tempo que passei na capital aprendi a desfazer as minhas próprias malas. Já não sou mais aquela garotinha mimada que você viu partir, dona Berê. – Isabel ri docemente e dá um beijo carinhoso na face da governanta que a criou como se fosse uma filha. – Vou falar com o Dr. Soriano, e quando eu voltar desfaço as minhas malas.

– Está bem! Vou pedir ao Juan que acompanhe a senhorita até a residência do Doutor.

A caminho da cidade. Nem mesmo a agradável companhia do filho do capataz foi capaz de acalentar o amargurado coração de Isabel. Mais uma vez a cena se repetia, mas uma vez Juan falava e ela nada ouvia. Apesar do rapaz saber fazer bom uso do poder das palavras, somente as palavras do Dr. Soriano poderiam trazer algum conforto à angustiada garota. Ela tentava ostentar uma postura forte, como já vira tantas vezes seu pai fazendo perante os problemas. Mas olhando no fundo de seus olhos, tudo que Juan enxergava era um tempo chuvoso, eram nuvens carregadas prestes a desaguar. Ele acelerava a charrete cada vez mais, quanto antes chegar ao destino, mais rápido Isabel saberá o que realmente seu pai tem.

Chegam à residência do doutor. Juan aguarda na porta enquanto Isabel conversa com o doutor dentro da casa.

– Por favor, Dr. Soriano. Peço que vá direto ao assunto. O que meu pai tem?

– Sente-se Isabel, e acalme-se.

A garota se senta na poltrona apontada pelo médico. Ele também se senta n’uma poltrona de fronte a ela.

– Seu pai, não tem nada, absolutamente nada.

– Como nada, Doutor? Ele está acamado, suando frio e mal fala.

– Seu pai está doente, mas não é uma doença que eu possa curar. O que seu pai tem é totalmente hamlético. A doença de seu pai não é no corpo, é no emocional. Tudo indica que ele está melancólico. Isso… Imagino eu, só pode ter sido causado pela sua ausência.

– Melancólico?!? O soberbo coronel Machado… Sofrendo de nostalgia?!? O senhor não pode estar falando de meu pai!

– Estou sim, minha cara Isabel. As pedras também choram. O que o velho coronel tem é pura e simples saudades.

– Dona Berê já me disse em algumas oportunidades que meu pai só se tornou esse homem bruto após a morte de minha mãe, mas…

– Talvez a sua presença ocupasse o vazio deixado por sua mãe no coração do velho coronel, e quando você partiu… Aconselho você há passar um tempo na fazenda. Fique com ele uns dias. Logo seu pai estará firme e forte de novo. Confie em mim! Receitei alguns antidepressivos a ele a fim de conseguir um efeito ilusório, porem, só existe um remédio que pode curá-lo… Você! Passe uns dias com ele e quando ele melhorar, que será logo, você poderá partir de novo.

– Bom, se o senhor estiver certo, fico feliz por não ser nada mais grave. Mas quem diria que o Velho coronel Machado ficaria acamado por nostalgia. É algo inacreditável.

– Pois é, minha cara. As pedras também choram!

– Então, vou-me embora mais aliviada do que cheguei. Já está anoitecendo e ainda tenho que desfazer minhas malas, tomar um banho e descansar da viagem. Boa noite, doutor.

– Boa noite, Isabel. Amanha logo pela manhã eu farei uma visita à fazenda para conferir como ele está. Tenho certeza que já demonstrará melhoras.

-Boa noite, Dr. Soriano.

Na charrete de volta pra casa. Já calma, com o coração reconfortado, Isabel pôde vivenciar o prazer da companhia de Juan. Os olhares se encontram, sorrisos escapam pelo canto dos lábios. Palavras não ditas, sussurradas junto ao vento no sublime silêncio desta noite de luar que caiu sobre a cidade. No caminho para casa. Nenhuma palavra ousou ser pronunciada. Ouviam apenas o som do vento soprando, sussurrando segredos. Mas muita coisa foi dita, em versos, em poesias, em canções declamadas e cantadas como que por um coral de anjos. Qualquer simples palavra que ousasse ser pronunciada estragaria aquele momento único, que em silêncio, as almas estavam se conhecendo.

Chegam à fazenda. A doce Isabel reporta as palavras do doutor à D. Berenice e sua filha, Mauren. Estas também se surpreendem com o diagnostico do Dr. Soriano. O coronel sempre fora um homem rude, fechado a sentimentos de afeto. O mais perto que ele chegou de uma demonstração de carinho para com a filha, foram os açoites aos pobres coitados que cobiçaram a mesma. Mas as duas se demonstraram dispostas a cooperar no que for necessário.

Os dias foram passando. Os dias, e, as noites. Isabel se tornou uma garota de rotina dualística. Dividiu-se entre os cuidados e atenção com seu doentio pai durante o dia, e, os encontros amorosos, o amor proibido, vivido, ao lado de Juan ao cair de todas as noites. Sob a proteção de sua amiga-irmã, Mauren. Isabel viveu doces momentos, longos passeios iluminados pela luz do luar. O dia em que o primeiro sorriso surgiu no rosto do coronel Machado coincidiu com a noite em que n’um galho do acaso, a distraída Isabel tropeçou, nos braços de Juan encontrou seu amparo, e o momento apressou o inevitável, os olhos se convidaram, os lábios aceitaram, se tocaram, o primeiro beijo aconteceu. O desejo explodiu silente. Nasceu o primeiro beijo de vários, cada vez mais ardentes.

O coronel Machado foi ficando cada dia mais corado. Já arriscando alguns passos pelo quarto. E em um dia de sol, um coronel de aparência serena declarou seu amor incondicional à única filha. Na noite deste mesmo dia, em mais um dos passeios sem rumo, o jovem casal encontrou um casebre abandonado. Entraram, se sentaram. Beijos trocados, caricias, afagos, e o amor aconteceu em ato. Isabel se entregou à seu amado. Delírios frenéticos, ritmos suados. Os corpos tornaram-se um. A menina se descobriu mulher.

Isabel sentia-se realizada, caminhando nas nuvens. Seu pai se curando como um novo homem, de coração amolecido, amável. A imagem avessa do coronel Machado que ela deixou na fazenda há três anos, quando partiu para a capital.

Seu coração também fora ocupado, preenchido, por um jovem neto de índios, Juan, o nome de um amor.

Já não havia mais motivos para ir embora. Isabel decide passar mais alguns dias na fazenda, antes de voltar à capital para buscar o restante de seus pertences. Os dias tornaram-se semanas, quinzenas, meses. Seguindo os conselhos da experiente D. Berenice, a jovem, agora mulher, manteve em segredo seus encontros noturnos com seu amado.

Mas uma tontura repentina seguida de um breve desmaio. Isabel fora atendida, e pelas palavras do médico, descobre que em seu ventre existe uma vida.

Uma mistura de alegria intensa e desespero insensato tomam conta da garota. Ela trazia consigo o fruto de uma noite de amor, e, a duvida de como contar essa novidade à seu pai, a duvida de como será a reação do velho coronel Machado à noticia de um neto, fruto de um amor de sua filha única com o filho de um de seus subordinados, um descendente de índios.

Mais uma vez Isabel recorre à voz da experiência. A sábia governanta recomenda sem hesitar que o casal fuja para a capital, que Isabel invente uma desculpa qualquer e vá com seu amado morar na casa dos padrinhos sem que seu pai tome conhecimento de que irá acompanhada, e muito menos que alem de um homem ao lado também levará uma vida em seu ventre. E que voltem após o nascimento da criança, com o filho no colo. Uma imagem diz mais que mil palavras. Talvez a visão de um neto no colo da filha toque o coração do velho coronel e ele aceite melhor a noticia. E dona Berenice disse mais, para não serem vistos partindo juntos, recomendou que fugissem no meio da noite, pernoitem em algum lugar e peguem o trem no dia seguinte logo pela manhã. Ela se encarregará de dar a noticia ao patrão, quando estiver certa de que o casal já estará longe.

Mas Isabel queria que fosse perfeito. Ela sonhava se casar vestida de noiva. As circunstancias não permitiriam que seu pai a acompanhasse até o altar. Mas ela não irá abrir mão de entrar na igreja, de usar um vestido de noiva, o mesmo vestido que usado por sua mãe, e se casar com o homem que escolheu para passar o resto da vida junto com a benção de Deus.

Ela conversou com o padre da igrejinha da cidade, explicou a situação, omitindo a gravidez. Por conhecer a jaez do coronel e por ter um enorme carinho pela meiga Isabel, batizada por ele, o presbítero atendeu ao pedido feito pela jovem, concordando em realizar a união do casal secretamente no meio da noite, afinal, omitir não é mentir.

Tudo acertado. O dia combinado chegou. A noite caiu. No mesmo casebre onde se amaram pela primeira vez. Ela o aguardou…

Pela velha janela aberta, Isabel observa insistentemente o horizonte, onde repousam centenários eucaliptos ladeando a estreita estradinha de terra que se finda ao longe. A paisagem somada à belíssima lua cheia resulta numa pintura de beleza indizível, moldurada pela fenestra do abandonado casebre onde ela aguarda por seu amado.

Por varias vezes ela olha o relógio de ouro preso pela corrente em seu pulso. Os ponteiros quase estáticos caminham vagarosamente.

Ah, os ponteiros, malditos soldados do tempo. Algozes mestrados em psique humana. Céleres quando se pede que o tempo pare e vagueiam quando se quer que ele simplesmente passe. Assim são os ponteiros, os malditos soldados do tempo. Isabel sente-se torturada por esses impiedosos soldados em sua marcha vagarosa como se pairassem na eternidade.

Juan está a caminho do casebre onde sua amada o aguarda. Saiu de casa sorrateiramente no silêncio da noite, tomando todas as precauções necessárias para não levantar suspeitas. Seu coração sente não poder se despedir de seus pais, mas sabe que eles entenderão os motivos.

Na fazenda, D. Berenice entra em seu aposento e encontra sua filha Mauren jogada ao chão como um pedaço de carne maltratado, seu vestido estava um trapo, todo rasgado, deixando a mostra suas costas riscadas com dezenas de cortes fundos feitos por chicotes enfurecidos. A governanta corre acudir a filha, que entre lágrimas e sangue encontrou forças para denunciar o causador de sua tortura:

– O coro… Coronel… Ele já sa… Sabe… De Isabel… E Juan… Ele sabe…

– Calma, minha filha, não se esforce, eu vou cuidar de você… Ai meu Deus, o que será desses dois…

Juan caminha a passos rápidos, ansioso pela hora em que ele e Isabel serão enfim marido e mulher. Mas como seu sangue indígena determina, sua afobação para encontrar com sua amada não cegou sua atenção para com os acontecimentos em sua volta. Manteve-se vivo aos ruídos dos insetos, ao som dos animais silvestres, ao canto das corujas, e, ao galho que se quebrou atrás de um dos eucaliptos à sua esquerda. Rapidamente ele se virou em direção ao barulho já empunhando a arma de fogo que trouxera consigo, e é surpreendido pelo coronel Machado também empunhando sua espingarda em direção ao rapaz.

Vendo-se prestes a ser vitimado em uma tocaia, Juan não hesitou em puxar o gatilho, mesmo sendo contra o pai da mulher que ama… Ele atirou.

O coronel tendo sua presa na mira, não hesitou em puxar o gatilho, mesmo sabendo que era contra o homem que sua filha escolheu para se casar e construir uma família… Ele atirou.

Simultaneamente, ambos tombaram, caíram mortalmente feridos. Os disparos ecoaram na calada da noite como desgraça anunciada. Os estampidos foram ouvidos ao longe. Pelos ouvidos de D. Berenice que estava com sua filha inconsciente martirizando em seus braços, e também, pelos ouvidos de Isabel, que aguardava impaciente por seu amado, alguém que ela sente no coração… Que nunca irá chegar.

Isabel chorou, por horas, chorou, por dias. Sem sair do lugar, do lugar combinado com seu amado. E o tempo foi passando…

A jovem Mauren veio a falecer devido a uma grave infecção causada pelas feridas em seu corpo.

Com a morte do capitão, de sua filha Mauren e vendo Isabel no estado em que se encontrava, D. Berenice mergulhou numa depressão avassaladora, num terrível desgosto pela vida e pela vontade de se manter viva. Só voltando a reencontrar a merecida paz n’uma dose única e letal de cianureto.

Varias foram as tentativas do velho padre de levar Isabel de volta à fazenda, mas todas foram em vão. A jovem passou longos dias e intermináveis noites, sentada naquele banquinho de madeira, olhando fixamente para o horizonte através daquela velha janela. Sem comer, sem dormir. Enfraqueceu e n’uma das varias madrugadas em claro, a morte veio enfim lhe buscar.

Hoje, quase oito décadas depois, algumas pessoas juram de pés juntos, que às vezes no meio da madrugada, ouve-se um choro de mulher vindo de dentro daquele velho casebre abandonado na beira da estrada. E alguns dizem que se você olhar mais atentamente, verá a imagem de uma jovem, vestida de noiva, em prantos, olhando fixamente para o horizonte por aquela velha janela aberta, esperando por alguém que nunca irá chegar.

Sobre Márcio Renato Bordin

Não sou ninguém. Vivo em lugar nenhum. Ver todos os artigos de Márcio Renato Bordin

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