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Pela Janela Aberta

Pela Janela Aberta

 

Márcio Renato Bordin

 

 

Pela velha janela aberta, Isabel observa insistentemente o horizonte, onde repousam centenários eucaliptos ladeando a estreita estradinha de terra que se finda ao longe. A paisagem somada à belíssima lua cheia resulta numa pintura de beleza indizível, moldurada pela fenestra do abandonado casebre onde ela aguarda por seu amado.

Por varias vezes ela olha o relógio de ouro preso pela corrente em seu pulso. Os ponteiros quase estáticos caminham vagarosamente.

Ah, os ponteiros, malditos soldados do tempo. Algozes mestrados em psique humana. Céleres quando se pede que o tempo pare e vagueiam quando se quer que ele simplesmente passe. Assim são os ponteiros, os malditos soldados do tempo. Isabel sente-se torturada por esses impiedosos soldados em sua marcha vagarosa como se pairassem na eternidade.

Sentada em um banco de madeira quase que dissipado pelo tempo, ela se mantém inerte na tentativa de não amarrotar o belo vestido de noiva que está usando, fato usado por sua mãe quando se casou com um riquíssimo e respeitado fazendeiro de café do interior de São Paulo. Meses depois ela engravidou da doce Isabel e infelizmente falecera em seu parto. Desde então a garota fora criada pela governanta, e por seu amargurado e inescrupuloso pai. Cresceu como quem cresce em uma redoma de cristal, longe de tudo e de todos, principalmente dos empregados da fazendo de café onde vivia. Apenas a governanta Berenice e sua filha Mauren tinham permissão para se aproximarem da garota. Seu pai, Coronel Machado, famoso por sua crueldade para com seus funcionários, escravos brancos, como ele os chamava, mandava chibatar qualquer um que ousasse olhar para sua única filha com cobiça, e para ele, todo olhar dirigido a ela havia sempre algum desejo contido. Inúmeros foram os açoitados amarrados ao tronco até que o braço do coronel começasse a doer.

Com a maioridade alcançada, não suportando mais ver tanta ferocidade no coração de seu próprio pai, e por saber que por muitas das vezes era por sua causa que esses pobres coitados apanhavam, Isabel decidiu se mudar para a casa dos padrinhos na capital com o pretexto de estudar. De inicio o coronel Machado fora enfaticamente contra a decisão de sua filha, mas percebeu que ela estava disposta a partir mesmo contra sua vontade, e pensar que enfim Isabel estaria longe dos peões da fazenda, o fez mudar de idéia. Com a condição de que Mauren, filha da governanta, fosse junto de Isabel e prometesse mantê-lo informado sobre todos os passos da garota. Isabel quase não se conteve de alegria ao ouvir a condição imposta por seu pai, era tudo que ela queria, já que as duas são praticamente irmãs, tinham poucos meses de diferença na idade, cresceram juntas na fazenda, cúmplices de todas as peripécias infantis, e além das traquinagens que as duas juntas aprontavam, eram também unidas pelo melancólico sentimento da ausência de uma das partes genitoras, Isabel é órfã de mãe, Mauren é órfã de pai desde os oito meses de vida, seu progenitor, braço direito do patrão, fora estranhamente assassinado em uma tocaia poucos meses após o falecimento da mãe de Isabel. As más línguas dizem que foi o próprio coronel Machado quem mandou matá-lo, para que a governanta ocupasse o lugar de sua falecida esposa na casa e na educação da filha, alguns ainda ousam em dizer que ela ocupara o lugar da patroa na cama do coronel também, mas os mais afoitos que chegaram ao ponto de fazer esse vil comentário em publico misteriosamente desapareceram da fazenda sem deixar noticias sobre os paradeiros.

Por três anos inteiros, Isabel e Mauren viveram na emergente capital paulista. Duas jovens garotas vivendo sozinhas na poética São Paulo dos anos trinta. Estudaram, passearam, conheceram muita gente nova, em geral amigos ou amigos dos amigos do pai de Isabel. Políticos interessados em agradar a filha de um poderoso e influente fazendeiro. Sempre tratavam de incluir o nome da jovem para as festas e saraus que promoviam. Isabel e Mauren viveram em três anos tudo que não viveram na época da fazenda sob a vigília do coronel. Mas como nada dura para sempre, a noticia de uma enfermidade repentina que conseguira deixar o sempre vistoso coronel de cama, obrigou as duas jovens a fazerem as malas às pressas e voltarem para a fazenda.

Ao chegarem à estação de trem, na cidade que há tempos não viam. As duas garotas atrapalhadas com o montante de malas, mal conseguiam passar pela porta de saída do vagão donde estavam. Riam delas mesmas, quando a alegria fora interrompida pela voz de um jovem rapaz. Parado em pé na plataforma com as mãos estendidas em direção às duas.

– Deixa-me ajudá-las, senhoritas.

É nesse momento que os olhos se encontram. O mundo pára e Isabel sente estranhamente seu coração disparar e suas pernas tremerem. Aquele rapaz de nítida descendência índia e beleza exótica despertara na garota um sentimento até então desconhecido por ela, um querer conhecer, saber… Um mistério com doce sabor de desejo…

– Deixa-me apresentar-me, meu nome é Juan, trabalho para vosso pai na lida com os peões, como ele está acamado confiou-me a tarefa de recebê-las na estação e acompanhá-las até a fazenda.

– Ah, entendi! Você é o novo capataz. – Isabel desdenha, pois sabe muito bem que um capataz de seu pai é tão vil e rude quanto ele próprio ou por muitas vezes, pior.

– Não exatamente, senhorita Isabel. Meu pai é o verdadeiro capataz, porem com o coronel enfermo e meu pai lidando com os peões, a incumbência de buscá-las, coube a mim. Mas, não se preocupe, não sou do mesmo jaez de ambos, se é isso que te incomoda, e, se me permite a indiscrição, acompanhá-las até vossa morada nesta tarde de sol, é mais uma satisfação do que meramente um encargo.

Isabel acanhada, apenas sorriu sem jeito com o inusitado galanteio do rapaz. Mauren percebendo o clima que se estabeleceu no ar e sabendo muito bem qual seria a reação do Coronel se tomasse conhecimento do súbito interesse de Juan por Isabel e dela por ele, tratou logo de interromper a conversa e pôs-se a perguntar sobre as novidades da cidade e da fazenda.

Por todo o caminho, Juan falou sobre as mudanças ocorridas na cidade desde sua chegada. E por todo o caminho, Isabel nada ouviu. Enquanto o rapaz contava e relatava todas as novidades, Isabel apenas observava sua boca se mexendo, o desenho que formava ao pronunciar cada palavra, o modo como sorria, e principalmente, o modo como seus olhos se fixavam nos olhos dela por breves segundos no intervalo de cada frase. Ele tentava disfarçar seu interesse pela patroa, conhecia as estórias sobre os que ousaram olhar pra ela com interesse, mas era inevitável. A beleza de Isabel é de uma pureza inexplicável. Pura, doce, e, ao mesmo tempo dona de um olhar penetrante, beirando o hipnótico. Um sentimento tão belo quanto perigoso sorrateiramente vai invadindo e ocupando o coração desses dois jovens. Mauren até que tenta intervir, porem, em vão. Suas tentativas foram ignoradas, suas palavras não foram ouvidas. Tudo que ela pode fazer agora é rezar para que o pior não aconteça.

Ao chegarem à fazenda, Isabel corre ao quarto do coronel, e pela primeira vez na vida ela presencia o robusto coronel Machado debilitado numa cama. Ela se ajoelha ao lado do pai, sussurrando em seu ouvido:

– Estou aqui, papai. – ela segura as mãos enormes e suadas do coronel entre as suas mãos pequenas.

– Isabel?!?

– Sim, sou eu. Vim assim que soube.

– É bom vê-la de novo minha filha. Pena que o motivo que a trouxe de volta não tenha sido a saudade desse seu velho pai!

– Deixa de ser bobo, papai. Sabe que eu te amo muito. Eu estava morrendo de saudades de você e da vida na fazenda, sim. Mas confesso que não perderia por nada a oportunidade de ver o imponente coronel Machado nocauteado pela saúde.

Ele esboça um sorriso, mas está nitidamente fraco até mesmo para ostentar um sorriso nos lábios.

– Descanse agora, papai. Vou desfazer minhas malas, e depois vou procurar o doutor e ver o que ele tem a me dizer sobre você. – Isabel beija a testa suada do coronel, notando que a temperatura está excessivamente alta. Levanta-se e caminha em direção a saída do quarto parando próximo à governanta que esta em pé ao lado da porta, perguntando:

– O que o doutor disse?

– Nada, o Dr. Soriano não conseguiu diagnosticar o que seu pai realmente tem, mas pediu para você procurá-lo assim que chegasse à fazenda. Talvez, ele queira revelar a verdadeira situação da saúde do coronel primeiramente à pessoa da família. Espero mesmo estar errada. Se eu estiver certa, é porque a situação é mais grave do que aparenta.

– Bom, sendo assim. Vou primeiro procurá-lo e depois desfaço minhas malas.

– Vá! Fale com o doutor. Deixe que Mauren e eu cuidemos de sua bagagem.

– Não precisam se incomodar. Nesse tempo que passei na capital aprendi a desfazer as minhas próprias malas. Já não sou mais aquela garotinha mimada que você viu partir, dona Berê. – Isabel ri docemente e dá um beijo carinhoso na face da governanta que a criou como se fosse uma filha. – Vou falar com o Dr. Soriano, e quando eu voltar desfaço as minhas malas.

– Está bem! Vou pedir ao Juan que acompanhe a senhorita até a residência do Doutor.

A caminho da cidade. Nem mesmo a agradável companhia do filho do capataz foi capaz de acalentar o amargurado coração de Isabel. Mais uma vez a cena se repetia, mas uma vez Juan falava e ela nada ouvia. Apesar do rapaz saber fazer bom uso do poder das palavras, somente as palavras do Dr. Soriano poderiam trazer algum conforto à angustiada garota. Ela tentava ostentar uma postura forte, como já vira tantas vezes seu pai fazendo perante os problemas. Mas olhando no fundo de seus olhos, tudo que Juan enxergava era um tempo chuvoso, eram nuvens carregadas prestes a desaguar. Ele acelerava a charrete cada vez mais, quanto antes chegar ao destino, mais rápido Isabel saberá o que realmente seu pai tem.

Chegam à residência do doutor. Juan aguarda na porta enquanto Isabel conversa com o doutor dentro da casa.

– Por favor, Dr. Soriano. Peço que vá direto ao assunto. O que meu pai tem?

– Sente-se Isabel, e acalme-se.

A garota se senta na poltrona apontada pelo médico. Ele também se senta n’uma poltrona de fronte a ela.

– Seu pai, não tem nada, absolutamente nada.

– Como nada, Doutor? Ele está acamado, suando frio e mal fala.

– Seu pai está doente, mas não é uma doença que eu possa curar. O que seu pai tem é totalmente hamlético. A doença de seu pai não é no corpo, é no emocional. Tudo indica que ele está melancólico. Isso… Imagino eu, só pode ter sido causado pela sua ausência.

– Melancólico?!? O soberbo coronel Machado… Sofrendo de nostalgia?!? O senhor não pode estar falando de meu pai!

– Estou sim, minha cara Isabel. As pedras também choram. O que o velho coronel tem é pura e simples saudades.

– Dona Berê já me disse em algumas oportunidades que meu pai só se tornou esse homem bruto após a morte de minha mãe, mas…

– Talvez a sua presença ocupasse o vazio deixado por sua mãe no coração do velho coronel, e quando você partiu… Aconselho você há passar um tempo na fazenda. Fique com ele uns dias. Logo seu pai estará firme e forte de novo. Confie em mim! Receitei alguns antidepressivos a ele a fim de conseguir um efeito ilusório, porem, só existe um remédio que pode curá-lo… Você! Passe uns dias com ele e quando ele melhorar, que será logo, você poderá partir de novo.

– Bom, se o senhor estiver certo, fico feliz por não ser nada mais grave. Mas quem diria que o Velho coronel Machado ficaria acamado por nostalgia. É algo inacreditável.

– Pois é, minha cara. As pedras também choram!

– Então, vou-me embora mais aliviada do que cheguei. Já está anoitecendo e ainda tenho que desfazer minhas malas, tomar um banho e descansar da viagem. Boa noite, doutor.

– Boa noite, Isabel. Amanha logo pela manhã eu farei uma visita à fazenda para conferir como ele está. Tenho certeza que já demonstrará melhoras.

-Boa noite, Dr. Soriano.

Na charrete de volta pra casa. Já calma, com o coração reconfortado, Isabel pôde vivenciar o prazer da companhia de Juan. Os olhares se encontram, sorrisos escapam pelo canto dos lábios. Palavras não ditas, sussurradas junto ao vento no sublime silêncio desta noite de luar que caiu sobre a cidade. No caminho para casa. Nenhuma palavra ousou ser pronunciada. Ouviam apenas o som do vento soprando, sussurrando segredos. Mas muita coisa foi dita, em versos, em poesias, em canções declamadas e cantadas como que por um coral de anjos. Qualquer simples palavra que ousasse ser pronunciada estragaria aquele momento único, que em silêncio, as almas estavam se conhecendo.

Chegam à fazenda. A doce Isabel reporta as palavras do doutor à D. Berenice e sua filha, Mauren. Estas também se surpreendem com o diagnostico do Dr. Soriano. O coronel sempre fora um homem rude, fechado a sentimentos de afeto. O mais perto que ele chegou de uma demonstração de carinho para com a filha, foram os açoites aos pobres coitados que cobiçaram a mesma. Mas as duas se demonstraram dispostas a cooperar no que for necessário.

Os dias foram passando. Os dias, e, as noites. Isabel se tornou uma garota de rotina dualística. Dividiu-se entre os cuidados e atenção com seu doentio pai durante o dia, e, os encontros amorosos, o amor proibido, vivido, ao lado de Juan ao cair de todas as noites. Sob a proteção de sua amiga-irmã, Mauren. Isabel viveu doces momentos, longos passeios iluminados pela luz do luar. O dia em que o primeiro sorriso surgiu no rosto do coronel Machado coincidiu com a noite em que n’um galho do acaso, a distraída Isabel tropeçou, nos braços de Juan encontrou seu amparo, e o momento apressou o inevitável, os olhos se convidaram, os lábios aceitaram, se tocaram, o primeiro beijo aconteceu. O desejo explodiu silente. Nasceu o primeiro beijo de vários, cada vez mais ardentes.

O coronel Machado foi ficando cada dia mais corado. Já arriscando alguns passos pelo quarto. E em um dia de sol, um coronel de aparência serena declarou seu amor incondicional à única filha. Na noite deste mesmo dia, em mais um dos passeios sem rumo, o jovem casal encontrou um casebre abandonado. Entraram, se sentaram. Beijos trocados, caricias, afagos, e o amor aconteceu em ato. Isabel se entregou à seu amado. Delírios frenéticos, ritmos suados. Os corpos tornaram-se um. A menina se descobriu mulher.

Isabel sentia-se realizada, caminhando nas nuvens. Seu pai se curando como um novo homem, de coração amolecido, amável. A imagem avessa do coronel Machado que ela deixou na fazenda há três anos, quando partiu para a capital.

Seu coração também fora ocupado, preenchido, por um jovem neto de índios, Juan, o nome de um amor.

Já não havia mais motivos para ir embora. Isabel decide passar mais alguns dias na fazenda, antes de voltar à capital para buscar o restante de seus pertences. Os dias tornaram-se semanas, quinzenas, meses. Seguindo os conselhos da experiente D. Berenice, a jovem, agora mulher, manteve em segredo seus encontros noturnos com seu amado.

Mas uma tontura repentina seguida de um breve desmaio. Isabel fora atendida, e pelas palavras do médico, descobre que em seu ventre existe uma vida.

Uma mistura de alegria intensa e desespero insensato tomam conta da garota. Ela trazia consigo o fruto de uma noite de amor, e, a duvida de como contar essa novidade à seu pai, a duvida de como será a reação do velho coronel Machado à noticia de um neto, fruto de um amor de sua filha única com o filho de um de seus subordinados, um descendente de índios.

Mais uma vez Isabel recorre à voz da experiência. A sábia governanta recomenda sem hesitar que o casal fuja para a capital, que Isabel invente uma desculpa qualquer e vá com seu amado morar na casa dos padrinhos sem que seu pai tome conhecimento de que irá acompanhada, e muito menos que alem de um homem ao lado também levará uma vida em seu ventre. E que voltem após o nascimento da criança, com o filho no colo. Uma imagem diz mais que mil palavras. Talvez a visão de um neto no colo da filha toque o coração do velho coronel e ele aceite melhor a noticia. E dona Berenice disse mais, para não serem vistos partindo juntos, recomendou que fugissem no meio da noite, pernoitem em algum lugar e peguem o trem no dia seguinte logo pela manhã. Ela se encarregará de dar a noticia ao patrão, quando estiver certa de que o casal já estará longe.

Mas Isabel queria que fosse perfeito. Ela sonhava se casar vestida de noiva. As circunstancias não permitiriam que seu pai a acompanhasse até o altar. Mas ela não irá abrir mão de entrar na igreja, de usar um vestido de noiva, o mesmo vestido que usado por sua mãe, e se casar com o homem que escolheu para passar o resto da vida junto com a benção de Deus.

Ela conversou com o padre da igrejinha da cidade, explicou a situação, omitindo a gravidez. Por conhecer a jaez do coronel e por ter um enorme carinho pela meiga Isabel, batizada por ele, o presbítero atendeu ao pedido feito pela jovem, concordando em realizar a união do casal secretamente no meio da noite, afinal, omitir não é mentir.

Tudo acertado. O dia combinado chegou. A noite caiu. No mesmo casebre onde se amaram pela primeira vez. Ela o aguardou…

Pela velha janela aberta, Isabel observa insistentemente o horizonte, onde repousam centenários eucaliptos ladeando a estreita estradinha de terra que se finda ao longe. A paisagem somada à belíssima lua cheia resulta numa pintura de beleza indizível, moldurada pela fenestra do abandonado casebre onde ela aguarda por seu amado.

Por varias vezes ela olha o relógio de ouro preso pela corrente em seu pulso. Os ponteiros quase estáticos caminham vagarosamente.

Ah, os ponteiros, malditos soldados do tempo. Algozes mestrados em psique humana. Céleres quando se pede que o tempo pare e vagueiam quando se quer que ele simplesmente passe. Assim são os ponteiros, os malditos soldados do tempo. Isabel sente-se torturada por esses impiedosos soldados em sua marcha vagarosa como se pairassem na eternidade.

Juan está a caminho do casebre onde sua amada o aguarda. Saiu de casa sorrateiramente no silêncio da noite, tomando todas as precauções necessárias para não levantar suspeitas. Seu coração sente não poder se despedir de seus pais, mas sabe que eles entenderão os motivos.

Na fazenda, D. Berenice entra em seu aposento e encontra sua filha Mauren jogada ao chão como um pedaço de carne maltratado, seu vestido estava um trapo, todo rasgado, deixando a mostra suas costas riscadas com dezenas de cortes fundos feitos por chicotes enfurecidos. A governanta corre acudir a filha, que entre lágrimas e sangue encontrou forças para denunciar o causador de sua tortura:

– O coro… Coronel… Ele já sa… Sabe… De Isabel… E Juan… Ele sabe…

– Calma, minha filha, não se esforce, eu vou cuidar de você… Ai meu Deus, o que será desses dois…

Juan caminha a passos rápidos, ansioso pela hora em que ele e Isabel serão enfim marido e mulher. Mas como seu sangue indígena determina, sua afobação para encontrar com sua amada não cegou sua atenção para com os acontecimentos em sua volta. Manteve-se vivo aos ruídos dos insetos, ao som dos animais silvestres, ao canto das corujas, e, ao galho que se quebrou atrás de um dos eucaliptos à sua esquerda. Rapidamente ele se virou em direção ao barulho já empunhando a arma de fogo que trouxera consigo, e é surpreendido pelo coronel Machado também empunhando sua espingarda em direção ao rapaz.

Vendo-se prestes a ser vitimado em uma tocaia, Juan não hesitou em puxar o gatilho, mesmo sendo contra o pai da mulher que ama… Ele atirou.

O coronel tendo sua presa na mira, não hesitou em puxar o gatilho, mesmo sabendo que era contra o homem que sua filha escolheu para se casar e construir uma família… Ele atirou.

Simultaneamente, ambos tombaram, caíram mortalmente feridos. Os disparos ecoaram na calada da noite como desgraça anunciada. Os estampidos foram ouvidos ao longe. Pelos ouvidos de D. Berenice que estava com sua filha inconsciente martirizando em seus braços, e também, pelos ouvidos de Isabel, que aguardava impaciente por seu amado, alguém que ela sente no coração… Que nunca irá chegar.

Isabel chorou, por horas, chorou, por dias. Sem sair do lugar, do lugar combinado com seu amado. E o tempo foi passando…

A jovem Mauren veio a falecer devido a uma grave infecção causada pelas feridas em seu corpo.

Com a morte do capitão, de sua filha Mauren e vendo Isabel no estado em que se encontrava, D. Berenice mergulhou numa depressão avassaladora, num terrível desgosto pela vida e pela vontade de se manter viva. Só voltando a reencontrar a merecida paz n’uma dose única e letal de cianureto.

Varias foram as tentativas do velho padre de levar Isabel de volta à fazenda, mas todas foram em vão. A jovem passou longos dias e intermináveis noites, sentada naquele banquinho de madeira, olhando fixamente para o horizonte através daquela velha janela. Sem comer, sem dormir. Enfraqueceu e n’uma das varias madrugadas em claro, a morte veio enfim lhe buscar.

Hoje, quase oito décadas depois, algumas pessoas juram de pés juntos, que às vezes no meio da madrugada, ouve-se um choro de mulher vindo de dentro daquele velho casebre abandonado na beira da estrada. E alguns dizem que se você olhar mais atentamente, verá a imagem de uma jovem, vestida de noiva, em prantos, olhando fixamente para o horizonte por aquela velha janela aberta, esperando por alguém que nunca irá chegar.


A Casa

Por.: Rafael Bernini

 

-Dia cansativo hoje. – diz Jazz a seu irmão Ralf.

-Nem se fala. Trabalhar na pedreira e ainda volta pra casa a pé não é fácil.

-O pior é ter que carregar essas picaretas nas costa.

-Nem se fala, não vejo à hora de chegar a casa e tomar um banho.

-Ralf, o que você acha de passarmos na casa velha e tomarmos banho de água encanada?

Evita de termos que ir buscar água no rio.

-Mas os boatos que dizem da casa velha? Acha que deveríamos arriscar.

-Aquela chacina aconteceu há anos, você não acredita em fantasmas e espíritos? Acredita?

-Vamos então que já esta escurecendo.

-Vamos.

Jazz e Ralf eram irmãos, trabalhavam na pedreira, eram extremamente fortes e bem apresentáveis. Moravam em um pequeno sitio a beira de um rio que o qual passava perto da casa velha e acabava no fim da pedreira com alguns quilômetros até o lago que passava pela cidade. Jazz e Ralf estavam perto da casa velha, construída no século passado, devia ter sido construído por mineiros que escavavam a mina por aquelas épocas, era ano de mil novecentos e quarenta e nove, um ano dura de revoluções ao qual o interior não havia sido afetado. -Cara que Casa medonha.

-É mesmo, mais fiquei sabendo que a água que cai pelo encanamento é ótima.

-Vamos que quero conhecer logo essa casa.

Cruzaram um pequeno jardim, e forçaram a porta amarrada por correntes e um grande cadeado de ferro. Tinha um grande salão até chegar às escadarias com salas para os dois lados e um corredor tremendamente escuro que passava por traz da escada e saiam em algum lugar com certeza. Jazz colocou o pé em cima do primeiro degrau.

-A onde vai? – perguntou Ralf.

-O encanamento é lá em cima.

-Não me disse que teríamos que ir lá em cima?

-Se esta com medo volte ninguém esta te impedindo.

-Vai se ferrar.

-Então vamos.

                Subindo bem de vagar as escadas estavam podres, lentamente degrau sobre degrau. O piso superior parecia ainda mais assombroso. Ao cegar no andar Ralf da um grito e cai para traz.

-O que aconteceu? – pergunta Jazz

-Pensei em ter visto alguém no fim do corredor.

-Você esta ficando maluco. É só um espelho vamos logo que ainda quero tomar banho e chegar em casa logo. Subindo para o segundo andar em direção a um quarto que ficava entre o encontro dos dois lados da escada abriram a porta que era imensa e de madeira escura e maciça.

                Forçando-a para que pudessem abrir um forte cheiro entra em seus narizes, não sabiam o que era aquele cheiro mais não era estranho. 

-Nossa que fedor.

-Que cheiro do inferno. Agora acho que não foi uma boa idéia termos vindo. – diz Jazz.

-Agora que percebeu que era uma boa idéia

-Olha só esse quarto. Queria ter um desses para mim. – Olhando dentro do quarto era imenso estava vazio mais muito bem distribuído com a janela que dava a lado do jardim que deveria se a vista mais bonita antes de ser totalmente abandonada.

-Ei Ralf? Olha o banheiro.

Ralf seguiu em direção ao banheiro era enorme e na ponta o cano havia um chuveiro.

-Olha só que negocio invocado. Deve ser isso que chamam de chuveiro. Vamos. – ambos tiram a roupa ficando apenas de ceroulas.

Aquilo jogava água como nunca tinham visto, estavam se deliciando com a brincadeira mais começou a faltar água e secou o chuveiro. 

-Maldito.

-Acabou a água. – Já aproveitamos o suficiente, vamos embora. – diz Ralf. -Certo ambos se vestiam, quando Ralf para e passos de vagar em outra parede.

-Jazz? Jazz? 

-Que é? 

-Fale baixo. 

-Por quê? 

-Tem alguém no outro cômodo.

-Como assim?

-Coloque o ouvido aqui. Encostado o ouvido ambos escutam passos no cômodo ao lado, alguns gemidos e resmungos acompanhavam seus ouvidos fazendo tremer até a espinha.

Algumas barras de ferro continuavam a cair no chão.

-Estranho?
-O que é estranho Ralf?

-Ferros caindo. Por que teria ferros caindo no outro cômodo?

-Escuta. – Jazz fez sinal para que Ralf colocasse o ouvido novamente na parede.

                -O que é Jazz. – resmungou.

                -Os paços estão ficando mais forte.

                Como se houvesse encostado rente a parede um silencio súbito tomou conta.

-Parou?

-Sim.

Uma tremenda cacetada de ferro zune no outro cômodo fazendo com que os irmãos caem apavorados no chão.

-O que é isso?

Sinais começavam a aparecer de frente onde tinham colocado o ouvido.

-Vamos embora.

Ambos se levantam e saem correndo e para após tela cruzada.

-Que merda é essa?

-Ou droga.

O lugar tinha mudado totalmente aquilo parecia um inferno o lugar estava banhado em sangue.

-O meu Deus – diz Ralf.

                -Vamos por ali.

                Seguiram em direção ao corredor onde acharam a escada que descia para o próximo andar.

Os barulhos de ferro caindo pelo chão, eram atordoantes.

Desceram as escadas.

-Jazz não foi aqui que subimos.

Passos e gritos ecoam no andar.

-Não vai ficar para procurar a outra vai?

-Não.
-Então venha.

Chegando ao meio da escada ambos param.

-Espera. O barulho acabou.

-Parece que sim.

De repente as vidraças são arrebentadas por pedras e novamente os gritos cada vez mais fortes.

-Desce! Desce! Desce! – gritava Ralf.

Viraram o corredor como uns loucos chegaram a próxima escada. Antes de descerem Ralf olha para traz e vê uma garota saindo da sombra, parecia estar chorando, a luz da lua mostrava metade do seu rosto. Era uma garotinha linda.

-Quem é você garota.

Ela apenas chorava e segurava uma boneca de pano com o rosto arredondado e cabelos de lã.

-Você está maluco Ralf. Não tem ninguém ai.

-Claro que tem é uma garotinha de cabelos até o ombro.

-Não tem ninguém vamos.

Ralf via a garota, e de vagar ela se aproximava aquilo lhe dava calafrios. Com pequenos paços ela vinha e vinha. Quando a lua iluminou completamente seu rosto metade era totalmente desfigurado via-se um dos olhos pendurados e todo arrebentado ossos e nervos podres. Aquilo revirou o estomago de Ralf.

-Corre Jazz, corre.

-Merda.
Desceram as escadas e chegaram ao corredor. O andar de baixo estava pegando fogo.

-Como foi pegar fogo aqui?

-Eu que não quero saber.

-O meu Deus! O meu Deus! – Jazz olhava os corpos que se queimavam como fogo.

Acharam a saída e correram até o pequeno portão. Quando olham o lugar esta do jeito que chegaram.

-Ralf você esta com meus óculos?

-Não o vi usar ele hoje.

-Estava no meu bolso.

-Vamos embora amanha a gente procura. Ainda estou apavorado com essa casa.

-Mais juraria que tinha colocado no meu bolso.

Na manha seguinte os dois irmãos descem para tomar café. Sentam-se a mesa, Ralf caçoa de seu irmão. Ambos ainda estavam apavorados com o que tinha acontecido mais chegaram a uma conclusão de que aquilo não deveria mais ser mencionado.

-Ai Jazz seus óculos. Não tinha esquecido – um pequeno sorriso saiu da boca de Ralf com grandes pedaços de pão dentro dela.

-Olha é mesmo.

-Mais você o perdeu Jazz. – diz a mãe.

-Não olha ele aqui.

-Logo após se deitarem – diz a mãe. – uma garotinha o trouxe aqui.

-Como assim? – questiona Ralf.

-Uma mocinha de cabelos pretos até os ombros, segurava uma boneca de pano, pele branca.

-Esta de brincadeira?

-Não porque estaria? Preocupei-me com ela parecia estar sozinho e já era tarde. E ela inda me disse que vocês estavam no banheiro da casa dela. O que faziam lá? Ela disse que qualquer dia desses viria nos visitar.

A partir daquele dia nunca mais os irmãos falaram sobre aquilo. Mas a casa ainda se podia ouvir os gritos e berros durante a noite.


A Ilha

ilha

Por.: Márcio Renato Bordin

 

Diego acorda com o corpo todo suado.

-Que pesadelo terrível- ele pensa em voz alta.

Quando vai se levantar, percebe que estranhamente estava dormindo em uma rede velha, suas roupas estão um trapo, todo roto; olha para os lados, seu quarto?!? Não está mais em seu quarto, ele acordou dentro de uma choupana aparentemente abandonada; teias de aranha por todos os lados; vasos de argila quebrados, poeira e mais poeira.

Está fazendo um calor de rachar, Diego procura por água, sua cabeça gira confusa, tenta entender o que está acontecendo, como que ele foi parar ali, nada faz sentido.

Olha em um canto da choupana, um vaso inteiro, talvez esse tenha água; sua garganta está em chamas; Diego pega-o e chacoalha, sim, tem algo líquido aqui, mas o cheiro está horrível; joga um pouco no chão de areia para conferir o que tem dentro, é um liquido grosso, vermelho escuro, fedorento… É sangue, junto com o sangue cai do interior do vaso algo meio redondo, de inicio não dá para ver direito o que é; Diego pega um galho e limpa o sangue e a areia que grudou na estranha bola ao cair…  Meu Deus! É um olho humano.

Apavorado, o rapaz deixa o vaso cair, derramando todo o sangue sujo de dentro e vários olhos humanos; lembra-se de sua mulher e seus filhos; os procura desesperadamente; corre pra fora da choupana; o céu parece em chamas, sente como se sua pele pegasse fogo, seus pés descalços pisam em uma areia fervente como lava, seus joelhos dobram, ele chora, precisa ficar em pé, rastejando Diego continua procurando por sua esposa e seus três filhos; ao longe ele avista algumas árvores, talvez eles estejam em baixo de suas sombras se escondendo desse sol escaldante. 

Mas Diego procura, grita pelos nomes e não ouve resposta; tudo levava a crer que ele estava só e pelo jeito estava no inferno. Diego se senta encostando-se ao pé de uma das enormes árvores, tentando se lembrar dos últimos acontecimentos que ocorreram no dia anterior, antes de se deitar para dormir em seu quarto ao lado de sua esposa; lembrou-se que estava em uma festa havaiana, bebeu muito, dançou com algumas dançarinas contratadas para animar a festa, elas até juravam de pés juntos serem mesmo havaianas, se fosse uma festa do dia das bruxas, elas jurariam ter 300 anos cada; lembrou também de ter discutido com sua esposa por causa dessas dançarinas, foi um pouco mais além de uma discussão, ela lhe deu um tapa e Diego lhe retribuiu o carinho; um garçom que também estava vestido de havaiano entrou na briga para acalmar as coisas, mas foi agredido por Diego com um soco no queixo; o agressor foi seguro pelos seguranças da festa, e o pobre garçom pegou sua bandeja do chão, olhou nos olhos de Diego e sussurrou algumas palavras desconhecidas por ele:

-Libo gabi sa ang impiyerno.

-Só pode estar me ofendendo- Diego pensou no momento, mas agora, em sua lembrança, as palavras do garçom estão tendo sentido:

                -“Mil noites no inferno”. Foi isso que aquele maldito disse; será que estou no inferno? Só pode ser isso; esse calor, o céu, essa sede e nenhuma água…

Diego, com todo seu tormento, não tinha antes prestado atenção no som que vinha de suas costas, é o som do mar, ele se levanta e corre, saindo de baixo da sombra das arvores e voltando ao sol em chamas, pisando nas areias que lhe queimavam a sola dos pés deixando em carne viva, mas ele corria quase que se rastejando em direção à aquele som…

Enfim, seus olhos vêem ao longe, é mesmo o mar, mas conforme ia se aproximando, esse mar se tornava vermelho, é só o reflexo desse céu estranho e castigador; como se carregasse o mundo nas costas, sentindo toda a força da natureza empurrando seu corpo ao solo, ele resiste e, chega à margem das águas do mar; não é o reflexo do céu que a deixou vermelha, é um mar de sangue… Diego cai de joelhos, lágrimas escorrem de seu olhos, de braços abertos, ele olha para o céu e aos berros repete a pergunta que não quer se calar em sua cabeça:

-Por quê??? Diz-me o por quê???

Nada, nenhuma resposta; ele se levanta, tentando manter o corpo ereto, olha para todos os lados e onde seus olhos alcançavam só existia aquela areia cercada por sangue, de repente ele nota algo se movendo em baixo daquele liquido rubro, parece que são pessoas lhe acenando, fixa a vista já cansada e distorcida pelo sol, as imagens começam a ganham uma forma…

-Meu Deus o que é isso?

São pessoas presas pelo pé ao fundo desse mórbido oceano, porém elas estão vivas, acenando com as mãos para Diego, mas não parecem pedir por ajuda e sim o estão chamando; Diego olha diretamente no rosto de algumas dessas pessoas, algumas parecem sofrer, outras estão rindo, felizes.

– Será que a dor deles é menor que a minha? – Ele se questiona.

Dá alguns passos em direção ao mar de sangue, ele quer se juntar à elas, quer parar de sofrer, estão lhe chamando e suas pernas querem obedecer ao chamado, mas ele reluta, lembra-se que debaixo das árvores o sol não lhe castigava tanto, a sede ainda lhe ardia a garganta, porém nesse momento esse era o menor de seus males.

Longos minutos de caminhada que pareciam horas, Diego retorna a sombra das arvores, senta-se ao pé de uma delas novamente, chorando, seus olhos inchados se viram para o alto, nos galhos, quatro corpos dependurados, enforcados, corpos sem os olhos, os corpos de sua mulher e de seus três filhos…

-Nããããooo!!!

Ele grita em desespero, seu grito é ouvido pela enfermeira do manicômio, ela adentra ao quarto correndo acompanhada de outros dois enormes enfermeiros que o seguram enquanto ela lhe aplica uma injeção no braço. Diego sente seu corpo pesado, pouco à pouco o sono vai lhe tomando por completo, mas consegue ouvir a voz daquela enfermeira comentar com os outros dois rapazes:

-Ele assassinou a mulher e os filhos, foi algo brutal, arrancou os olhos de toda a sua família enquanto vivos e depois os enforcou…

Diego acorda com o corpo todo suado.

-Que pesadelo terrível- ele pensa em voz alta.

Quando vai se levantar, percebe que estranhamente estava dormindo em uma rede velha, suas roupas estão um trapo…


Um Amor Imortal.

Por.: Márcio Renato Bordin

 

-Oi Baby. Cheguei!

Ele a ouve sussurrar em seu ouvido. Sente os lábios quentes e úmidos tocarem seu rosto em um gostoso beijo de bom dia. Ainda sonolento, com os olhos cerrados, ele se vira esperando sentir o sabor daqueles lábios junto aos seus. Sente sua boca beijada pelo vento gélido adentrando ao quarto. Ele abre os olhos, está sozinho. Pela janela aberta o vento sopra ocupando todo o quarto. Ele não está totalmente só. Dividiu a cama com uma velha amiga, a quase vazia garrafa de whisky, sua amiga inseparável, companheira de todas as noites solitárias, amiga que por muitas vezes o fez esquecer que estava só.

Ele se senta na cama, espreguiçando-se. Olha por alguns segundos em cima do criado-mudo um retrato amarelado pelo tempo. Uma bela jovem, a imagem de um anjo eternizado em papel. Dona do mais belo sorriso, um sorriso encantador que os anos não amarelaram.

Ele leva o braço em direção ao retrato e, com as pontas dos dedos acaricia o rosto intocável, de um anjo estampado em um retrato.

-Por que eu nunca a procurei?

Mais uma vez a pergunta ecoa em sua cabeça. A mesma pergunta que seu coração lhe repetia todas as manhas.

-Por que eu nunca a procurei?

E como em todas as manhas, a resposta surgia quando seus olhos passeavam pelo quarto. Espalhados pelos cantos, tantos cadernos jogados. Dentre os diplomas e troféus, tantas paginas rabiscadas, estórias apenas começadas, outras, muitas outras já consagradas, conhecidas, filmadas. Aquela garota do retrato por tantas atrizes já fora interpretada, porem nenhuma delas conseguiu transpassar em tela a beleza pura, a simplicidade, carinho e sensualidade que aquela doce figura transmitia à ele, um velho escritor.

Aquela jovem estava em todos os seus livros, em seus contos, em seus personagens… Em seus sonhos.

Talvez ele pudesse tê-la procurado, conhecido-a pessoalmente. Talvez todos os seus sonhos se tornassem realidade. Talvez vivessem juntos uma bela história de amor.

Mas o que seria de seus personagens?

O que seria da magia que os une?

Qual a influencia que a rotina teria sobre esse amor tão belo que ambos alimentaram um pelo outro?

Juntos com os desejos revelados, revelar-se-iam também os defeitos e, a magia talvez se extinguisse com o tempo. Sendo assim, escolheram viverem a distancia esse sentimento tão belo. Amaram-se em sonhos, em contos, em prosa, em verso…

Muitos anos se passaram. Ambos viveram as suas vidas, envelheceram. Ele se tornou um solitário e consagrado autor da literatura fantástica. Ela, uma romancista renomada, ocupou seu lugar de honra na academia para o qual já nascera predestinada. Hoje passa os dias em sua fazenda do outro lado do país. Quando não está escrevendo, está com seus netos reunidos ao seu redor e contando uma de suas estórias de amor, todas em segredo dedicadas à ele.

Ambos envelheceram, mas guardaram nas lembranças a imagem jovial, sonhadora e apaixonada pela vida que ambos tinham quando se conheceram. Para ele, ela continuava bela e jovem como naquele antigo retrato sobre o criado-mudo. Inspirando-o em muitas outras personagens que ainda virão, com toda sua sensualidade de mulher e sua delicadeza de menina.

Muitos de seus amigos e admiradores já questionaram-no sobre a real existência de tão doce mulher. Sua resposta é imediata. Ela existe e sempre vai existir, eternizada em um retrato… Gravado em seu coração.


Lágrimas de Lorenzo

Por.: Márcio Renato Bordin

 

Lorenzo abraça forte o corpo de seu filho contra o peito. Envolve-o em seus braços. Acreditando ser capaz de transmitir todo o calor e vida do seu, ao corpo daquele pequeno ser. Lágrimas vertem de seus olhos como triste chuva torrencial. Vertem, nos lábios frios que outrora exibiu largo e contagiante sorriso.

Ele beija docemente a testa de seu filhote, sua prole, sua cria. Pedindo a Deus que o devolvesse, que o tempo parasse, retrocedesse, que aqueles lábios voltassem a sorrir. As lembranças surgem em sua memória: O som daquele choro tão esperado, anunciando o nascimento; a primeira palavra pronunciada, uma palavra simples, curta, mas pronunciada como se por lábios de anjo: Pai; lembra-se dos primeiros passos, saltitantes, trepidantes, desengonçados. Agora, apenas um corpo inerte com os olhos cerrados, sorriso apagado, passos e saltos que nunca mais serão dados. Uma voz silenciada com tanta coisa ainda a dizer.

É alta madrugada. Um manto negro estrelado cobre todo o céu. A lua reina, poderosa, triunfante, aterrorizante. Todos os moradores do vilarejo andarilham pelas ruas escuras, de casa em casa, de galpão em galpão. Não deixam nenhum local sem ser averiguado. Estão esfomeados. Caçadores sanguinários em busca de sua presa, sua caça, a caça, se esconde nesse momento dentro do celeiro em sua propriedade, segurando o filho morto nos braços.

Lorenzo, com as mãos trêmulas alisa os cabelos do garoto, penteando-os, queria deixá-lo com boa aparência, fazê-lo parecer tão vivaz como outrora fora. Com a mão esquerda ele ampara a cabeça do filho próxima a seu rosto, enquanto com a outra mão, acaricia sua face pálida. Com as pontas dos dedos toca-lhe os lábios procurando encontrar um último sorriso, um último pedido, um último chamado: Pai!

Os seres moribundos vagueiam próximos à propriedade de Lorenzo. Sentem o cheiro que emana de sua caça. Sabem, sentem que ela está por perto, e, não tardarão a encontrá-la. Invadem o velho casarão vasculhando em todos os cômodos. Nada escapa aos olhos famintos destes nefastos visitantes.

Lorenzo continua a acariciar o rosto do filho com as pontas dos dedos. Ri, inusitadamente, ao ver a pequena cicatriz no queixo do menino, fazendo-o memorar o primeiro tombo de bicicleta, a primeira vez em que ele se sentiu impotente diante de um perigo envolvendo o garoto. Mas ria ao lembrar do jeito todo atrapalhado como ele caiu em cima das roseiras de sua esposa, e de como ela ficou furiosa, nunca soube se ela ficou tão irritada pelas rosas, ou por Lorenzo ter soltado o filho à deriva n’uma bicicleta bem maior que o garoto. É uma das últimas lembranças que ele tem de sua companheira, falecida há dois anos, vitima de atropelamento. Deixando Lorenzo viúvo com um filho pequeno para criar. Ele sabe que foi graças ao garoto que ele resistiu à imensurável dor de perder o grande amor de sua vida. E, também por isso, ele vê na imagem de seu filho morto, um retrato de sua incapacidade. Não impediu que o filho caísse em cima das roseiras, não impediu o acidente da mulher ao deixá-la sair dirigindo sozinha naquela maldita noite chuvosa, e, não impediu que essa noite, seu filho fosse atacado por um assassino servo das trevas.

Lorenzo levanta a cabeça, fitando o nicho com a imagem de São Zenão de Verona, colocado ali a pedido da esposa, para que ela pudesse orar pelo filho todos os entardecer ao encerrar os seus afazeres diários. Lorenzo olha aquela imagem que observa atento o seu pesar, e de joelhos, com os olhos em prantos, aperta forte a cabeça do menino contra o peito.

-Porquê? Maldito! Porquê? Porquê não atendeu ao pedido feito tantas vezes por ela? Porquê não o protegeu? Não é esta a tua missão? Então, porquê não a cumpriu? Maldito seja! Eu também tinha que vir aqui todas as noites suplicar para que o fizesse? Era isso? Será que só ela lhe pedir tanto não foi suficiente? Maldito! Maldito! Maldito…

Arqueado, Lorenzo aguarda por uma resposta, em vão. Ele paira por longos segundos com os olhos fixos, suplicantes, naquela imagem que assiste, em silêncio, a angústia de um pai. Desiste, praguejando contra Deus e todos os santos, voltando a atenção para seu falecido filho. Suas lágrimas encharcaram toda face de seu pequeno. Ele enxuga a singela testa com as mãos. Beijando-a novamente dezenas de vezes. Inquirindo a si mesmo, em sofridos soluços, o porquê de tamanha tragédia. Seus dedos descem tateando pouco a pouco, cada milímetro da face do garoto, como se aquela delicada pele alva fosse um manto sagrado recobrindo seu bem mais precioso, seu tesouro mais valioso, seu único filho.

A cada toque, uma dor, uma despedida, um adeus. Os dedos descem, acariciando cada centímetro quadrado da face do garoto. Tocando novamente os lábios gélidos, o queixo, a cicatriz, o pescoço frágil. Tateou com cuidado a causa mortis, duas micro-feridas d’onde vertiam tênues linhas de sangue .

De ímpeto, o garoto abre os olhos vermelhos, escancarando os lábios ainda gélidos exibindo agora enormes e pontiagudas presas. Lorenzo agarra o garoto-vampiro pelos cabelos, evitando assim o bote em sua jugular. Escorre dos olhos desse pai, lágrimas vindas do intimo de seu ser. Rapidamente, ele usa a mão que até então acariciava para empunhar a estaca prontamente posta a seu lado. Com um golpe certeiro, e sem titubear, Lorenzo atravessa a estaca no jovem coração do filho. Gritos de dor ecoam uníssonos pela noite. O grito de um pai vendo-se obrigado a tirar a vida de seu único filho. O grito de uma criança vampira, tendo uma enorme estaca transpondo seu corpo, libertando-o da maldição da vida eterna. Lorenzo sente como se o seu corpo estivesse sendo perfurado. A cada grito, Lorenzo força mais e mais a estaca no coração do filho. Implorava para que os gritos cessassem. Para que o garoto morresse, pondo um fim na dor de ambos. Golfadas de sangue mancham a camisa de um homem em prantos. A criança parecia resistir as estocadas, transformando aquela lamuria, aquele tormento, em segundos perenes.

-Meu filho…

Os vampiros estavam dentro do casarão, no quarto do garoto, quando ouvem os gritos vindos do celeiro. Os moribundos haviam acabado de descobrir o corpo de um dos seus, morto ao lado da cama. Lorenzo o matou pelas costas enquanto este atacava covardemente seu filho.

Enfim os gritos cessam.  Lorenzo vê seu único filho morrer pela segunda e última vez. Ele sente naquele momento, o seu coração também morrer. Seu coração não mais existe, assim como a sua vontade de viver.

Os vampiros cercam o celeiro. O homem repousa a cabeça do filho lentamente no solo, se levantando com a estaca manchada com o sangue de seu único descendente, o seu sangue, em punho. Os mortos vivos invadem o celeiro por todos os lados, dezenas deles. Em segundos, cercam um homem imerso no âmago da dor. Lorenzo já está morto, e pronto para reencontrar seus tão amados, filho e esposa. Agora é só questão de tempo…


Inferno Noturno

Por: Rafael Bernini

 

 

 Todd apaga seu cigarro no chão entre os becos, onde totalmente alcoolizado estava caído entre os lixos e imundice do lugar. Todd tinha sido um homem de sucesso hoje perseguido por um espírito que o tormenta, ouve vozes, sussurros e um medo horripilante que não o faz olhar para atrás.

            Era um dia chuvoso, bebericava um gole de uma wisk barato e fumaça um cigarro, era madrugada os ratos passeavam pelo meio-fio e entrava em bocas-de-lobo que ficavam para drenar a água da chuva.  Todd estava apreensivo dessa vez, a mês que não era perseguido ou coisa aparecido, era alem de tudo misterioso, seu medo era confuso de descrever, parecia que gostava de sentir aquilo, o calafrio que lhe subia pela espinha fazia dar pequenas risadinhas  maquiavélicas.

            Aquela noite não era uma noite comum, era uma noite tenebrosa, a ansiedade era imensa, ele abaixa a aba do chapéu e começa a andar pelos becos, um olhar leve para cima e percebe uma formação magnética que faz com que nuvens negras começassem a tomar forma de um moinho, a lua negra perdia sua forma de sangue e era completamente coberta pelas nuvens e mais forte vinha a chuva.

            Agora um olhar de preocupação saia pelos olhos de Todd e uma leve palavra sai de sua boca.

            -Merda…

            Correndo rapidamente pelo beco, Todd segue firme para direção norte, subindo cada vez mais pelas do beco onde costumava caminhar. Ele percebe que a poucas distancia alguém o persegue passos fortes e tenebrosos, a noite fazia sentir frio do que medo, mas agora não dava mais tempo, pequenos vultos pela sombra faziam espíritos tomar forma em sua frente e uma criatura horripilante aparece atrás dele. Seu sangue gela sua, suas veias saltam, com a mão dentro do casaco, ele retira duas quarenta e quatro de cano longo, eram lindas, tinha um brilho que nenhuma outra arma que já tenha vista, em seu cabo de marfim tinha um crucifixo desenhado e um pequeno rosário preso ao seu braço.

            De costas para a criatura, empunha as duas armas. Era um demônio, o sorriso saia da boca de Todd, virando-se lentamente, ele tenta pegar uma boa posição quando a criatura o ataca, tinha uma aparecia horrível um corpo muito fino e aparência de zumbi, pernas e braços bem grandes e m par de asas que se lembra de um morcego, mas toda deformada.

            – Não te esperava ver tão cedo Nosferatu.

            A criatura com sua aparência horrível.

            -Você não perde por esperar, cretino.

            Todd avança violentamente para frente dele e esmurra com tanta força queo demônio bate fortemente com a parede fazendo-a rebentar-se toda e com uma velocidade incrível ele está em cima da criatura com uma arma na cabeça e diz.

            -Então não espero… – e puxa o gatinho seguidas vezes até que cabeça da criatura se desfizesse com os tiros a queima-roupa.

            Os espíritos que rodeavam para a sombra se afastavam, e com um olhar negro ele diz para eles.

            -E seja lá quem for que os tenha enviado, fale que não o quero encontrá-lo, e se for quem eu penso que seja eu mesmo vou ir vê-lo nem que seja no inferno…

            Os espíritos desapareceram na escuridão do beco úmido e tenebroso, Todd agora sozinho, e com armas no coldre totalmente encharcado pela chuva ajeitava seu chapéu e tentava se aquecer do frio que fazia na noite. Quem será tal criatura? Quem o queria que fosse destruído? Quem é realmente Todd?

            Isso é apenas o começo do fim.


Brincando com o Desconhecido

Por.: Márcio Renato Bordin

SSexta-feira, 23h50min. Acenderam algumas velas vermelhas pelos cantos da sala, sete amigos sentados formando um círculo e, no centro deles, uma tábua contendo todos os algarismos, todos os números de 0 a 9, um SIM e um NÃO. Temerosos, mas excitados com o que poderia acontecer, olham um na face do outro. Com um sinal de concordância dado por Michel, o mais velho entre eles, Rafael colocou sua mão sobre o copo virgem que se encontrava com a boca para baixo sobre a tábua:

   -Tem alguém aí? Tem alguém aí?

– Nada, nenhum movimento do copo, apenas uma tremedeira causada pela mão do jovem Rafael. Todos olhavam em volta, sentindo um leve calafrio que lhe percorriam a espinha. Um leve vento frio entrou janela adentro. Núbia, a única garota do grupo, pediu para pararem, mas foi alvo das chacotas de Michel:

– Sabia que não deveríamos trazer uma mulher com a gente!

– Está com medinho?

– Corre para debaixo da saia da mamãe e deixe que os homens continuem aqui.

Núbia abaixou sua cabeça, encobrindo a vergonha, mas não se levantou. Na verdade, todos ali estavam com medo, mas nada diziam temerante às gozações de Michel. Sob a ordem dele, Rafael voltou a pôr a mão sobre o copo e novamente questionar:

– Tem alguém aí? Tem alguém aí?

A janela bate quase derrubando a parede; um vento forte e gélido corre por entre a sala como se em círculos; as luzes piscam. Núbia foi tomada por um desespero. Chorava e, aos gritos, pedia para pararem com aquilo, mas não foi ouvida. Rafael, também amedrontado, tentou tirar a mão do copo, mas foi impedido pelas mãos de Michel:

– Vai, continua! Continua!

Núbia se levantou aos prantos e correu para a cozinha. Seu pavor estava totalmente fora de controle. Rafael, ainda obedecendo ao amigo, continuou:

– Tem alguém aí?

Antes que perguntasse novamente, o copo se moveu: SIM. Todos ficaram paralisados. As mãos trêmulas de Rafael já não conseguiam mais segurar o copo. Todos os seis se juntaram ainda mais, um se se encostando ao outro, espremidos em seu medo, mas atentos à tábua. Rafael, em soluços, voltou novamente a questionar:

– Quem é você? Quem é você?

O copo voltou a mexer indo em direção aos algarismos. Tomados pelo medo e pela curiosidade, eles fixaram os olhos na tábua, enquanto o copo continuava a se mover: E, U, P, E, D, I, P, A, R, A, P, A, R, A, R, E, M, Michel repetiu a frase soletrada:

– Eu pedi para pararem…

Todos olharam em direção à cozinha, para onde Núbia teria corrido, mas se depararam com a jovem em pé atrás deles, segurando uma faca de cozinha nas mãos. Com um só golpe, cortou a garganta de Michel, jorrando sangue em todos os outros. Rafael se levantou em direção da amiga tentando segurá-la, mas a força da jovem, naquele momento, era incrível. Atirou Rafael na parede e lhe estocou a faca em sua barriga. Os outros se agruparam no canto da sala, aos berros. Queriam correr pra fora, mas Núbia estava posicionada na única passagem possível.

Os berros que vinham da casa chamaram a atenção dos vizinhos. Um deles, mais do que depressa, chamou a polícia, que chegaram 30 minutos depois. Quando já não se ouvia mais nada vindo de dentro da casa, uma multidão se formou defronte à residência. Com o aparecimento da polícia, todos queriam saber o que aconteceu. Um dos policiais abriu a porta da sala com os pés. Deparou-se com Núbia sentada no sofá, coberta por pedaços de corpos e sangue, como se em estado de catatonia apenas repetia a frase:

– Eu pedi para eles pararem! Eu pedi para eles pararem! Eu pedi…


A Vingança de Simon

Por.: Rafael Bernini

Uma forte tempestade cai. O portal está aberto…

Meu nome é Simon. Sou príncipe herdeiro de Gorth, reino de Mustapha, meu pai, que era o senhor da guerra e do caos. Sua única obsessão era o poder e a glória.

Éramos descendentes direto de vampiros, a mais alta classe existente. Governávamos palácios e derrubávamos reinos, tempo em que o inferno era apenas um lugar.

Elric era o braço direito de meu pai, foi mordido ainda criança para governar o exército que se preparava para dominar toda escuridão. Mas não foi bem assim que aconteceu. Ele traiu meu pai, atravessando-lhe o peito com uma lança banhada em água benta, que o fez virar pó. Fui torturado e obrigado a viver em um túnel no subterrâneo, preso por correntes santas. Mil anos preso, sentindo cheiro de sangue. Tudo o que queria era uma chance de me vingar e seguir meu caminh para o inferno.

Um cheiro podre toma conta de uma gruta, alguém anda pelos túneis sombrios cantarolando algo ouvido na guerra. Segue até uma porta lacrada por correntes com um imenso cadeado sem encaixe para chave. Um sorriso misterioso toma conta do intruso.

– Querido, ainda usa esses cadeados divinos? Ele não aprende nunca.

Segura o cadeado e o quebra com uma das mãos como gravetos.

Atrás da porta, um corredor. Vários corpos pendurados por correntes.

Um ainda se move.

– Ora, ora. Será que o mundo é tão pequeno assim que acabei o achando num lugar destes?

– Quem é você infeliz? – pergunta o acorrentado.

– Estava passando por aqui e achei interessante te fazer uma visita.

– Quem diabos é você?

– Eu sou aquele que pode te trazer a vida. Eu posso ouvir seus lamentos, sua dor, sua súplica. E o melhor: sinto que você é um dos poucos vampiros que ainda tem uma alma. Sabe por quê? Você é o único que realmente pôde se alimentar do sangue de Cristo, e se tornar o portador do poder.

– E daí?

– Vamos fazer um trato. Devolvo sua força e você me dá o purgatório, o que acha?

– E como posso te dar isso?

– Derrote Nero e me coloque em seu posto. Somente assim poderá chegar até Elric.

– Aceito sua condição. Mas como conseguirei minhas forças de volta?

– Simples!

O homem arranca uma faca de seu bolso, corta um pouco acima de seu ombro e coloca a cabeça de Simon para que possa se alimentar. Em pouco segundos seu corpo revigora.

Simon se levanta e abre suas imensas asas negras. Arrebenta as correntes, mas um pouco delas ainda sobra em seus pulsos, como se fizesse parte de seu corpo agora.

Anda em direção à porta; percebe que o mundo não é mais como antes. Saindo por uma antiga igreja, no cemitério, não tem mais noção de onde está. Segue em frente até uma saída que dá para a imensa cidade. Prédios e grandes edifícios, coisas que nunca imagina-ra ver em sua vida. Alça vôo em direção ao céu nublado. Pára. Sente-se fraco e ainda está com fome.

– Olha que belo – o estranho aparece novamente.

– Preciso me alimentar.

– Então venha comigo. Prazer primeiro, depois alimento.

– Aonde vai me levar? – questiona Simon.

– A Nero.

– Como poderei matá-lo, fraco assim?

– Use as correntes. Mas cuidado, Nero é temido por sua agilidade e esperteza. Para matá-lo, deve arrancar sua cabeça. E não se esqueça, pegue a chave em seu pescoço.

– Sim.

– Então vamos.

Entrando em uma boate, seguem até um andar inferior. Simon logo está sozinho. Vê uma porta rodeada por guardas, imagina que ali está quem procura.

É barrado pelos guardas.

– Aonde pensa que vai?

– Preciso falar com Nero.

– Ele não quer ser incomodado.

– Mas eu insisto – e segue em frente.

O outro segurança o empurra e, com a mão esquerda, Simon o golpeia, afundando o nariz.

Rapidamente, o lugar está rodeado de seguranças. Dão tiros em direção a ele, que se esquiva e vai parar atrás de um balcão. Sente um tiro no braço. Começa a jogar garrafas. Várias. Os cigarros se misturam com o álcool e o fogo se espalha. Ele derruba um e pega a arma. Enquanto os corpos estão sendo queimados, ele segue pare seu objetivo.

Um amplo salão, onde há um jovem muito belo cercado de mulheres.

– Como você entrou aqui?

– Seus guardas beberam demais e acabaram dormindo.

– No que posso ajudar antes que chame mais deles.

Simon aponta a arma.

– Sei o que quer, cretino. Você quer minha chave. Mas isso não acontecerá. Porque nenhum humano pode tirar isso de mim. – diz Nero virando as costas para Simon.

– Já viu humano de asas, idiota!

Um tiro distraiu Nero e logo as correntes estavam apertando seu pescoço e removendo sua cabeça.

– Vejo que fez um belo trabalho, Simon.

– Onde posso encontrar Elric?

– À meia-noite de amanhã, quando o circulo azul estiver no céu, voe para seu centro e entre no seu antigo palácio. Lá saberá o que fazer.

Simon lhe entrega a chave. O estranho desaparece.

Uma forte tempestade cai. O portal está aberto e Simon segue em direção à tormenta. Chega ao pátio central. Sua antiga casa. Seu antigo lar. Agora, com uma bandeira do exército de Elric. Por enquanto. Segue em direção a uma entrada ao norte. Um sorriso toma seu rosto depois de anos. Corre pelos túneis e esgotos, chega a uma clareira, onde havia deixado sua antiga espada.

– Olá, querido irmão – diz Elric, acompanhado de um bando de homens – Que honra! De trás do trono, sai o estranho com a chave na mão.

– Aqui esta, meu mestre, a chave para o sangue da vida eterna.

O sangue de Cristo que é guardado no purgatório.

– Obrigado, Lúcifer, é tão eficiente quanto esperto.

– Seu desgraçado!

Os olhos chamuscam em amarelo e as asas brotam com ferocidade.

– Não terei dó de sua alma quando te matar e te devorar.

– E como isso irá acontecer? – diz Elric – Você esta cercado pelos meus melhores guerreiros. Não há nenhuma chance contra nós.

– Sé é o que pensa.

Empunha a arma e segue correndo em direção a Elric, deslizando a ponta de sua espada no chão numa velocidade espantosa. Crava-a no peito do irmão. O exército vai de encontro a ele, enquanto Lúcifer gargalha. Antes que Simon possa se defender, um clarão e um barulho forte toma conta do lugar.

Quando tudo volta ao normal, estão todos caídos, esquartejados. Lúcifer sumira.  Simon olha para o céu, sua vingança está completa, mas agora deve favor a Outro.


Cinzas

por.: Márcio Renato  Bordin

Joshua acende um cigarro. Um trago. Sente a fumaça invadir seu corpo. Sua filha chora. Sua mulher implora… O cigarro queima.

Outro trago. Todo o quarteirão já fora evacuado. Os policiais cercam a casa tentando manter os curiosos afastados. Os atiradores de elite posicionados em cima dos telhados vizinhos… Joshua fuma.

Puxa mais um trago. Ato tão prazeroso quanto nocivo. Não mais nocivo que seu calibre 44 que também cheira à fumaça. Acabara de ser disparada. Acabara de criar um cadáver.

O cigarro queima. Lentamente o sólido vai se tornando cinzas. Assim como a vida de Joshua. Outrora tão sólida, agora, apenas cinzas. A felicidade é vista apenas nas fotos espalhadas pelo chão da sala… O cigarro ainda queima.

Outro trago. Um calmante em forma de fumaça. Joshua nem ouve os gritos apavorados de sua esposa, que clama pela própria vida abraçada ao corpo inerte do amante.

Ele olha para o cigarro enquanto brinca soltando círculos de fumaça. Sua filha chora borrando a maquiagem carregada em seus olhos. Uma maquiagem pesada o suficiente para disfarçar seus dezessete anos de idade, nas noites em que se prostituía em troca de drogas. E Joshua julgando que sua inocente filha, ficava até tarde nas casas das amigas… Apenas estudando.

Joshua fuma tranquilamente seu cigarro sentado em sua poltrona posicionada no centro da sala de estar, com a 44 pousada sobre seu colo. Os policiais se preparam para invadir. Os dedos dos atiradores de elite coçam no gatilho. O alvo está na mira.

Eles só estão esperando a ordem para dispararem… Mas não há sinal de perigo.

O cigarro chega ao fim. A ponta. A bituca. Essa é a melhor parte. Tudo parece ser tão mais prazeroso quando próximo ao fim. O cigarro, a bebida… A vida

O sargento derruba a porta dianteira à ponta-pé, seguido por mais três soldados rasos. Os outros adentram à residência pela porta dos fundos e janelas. Rapidamente cercam um Joshua inerte.

O cigarro ainda queima. Desesperada a esposa grita para todos saírem. Porém… Tarde demais.

Todos cercam um homem dando seu ultimo trago no cigarro, totalmente indiferente aos fatos ocorrendo em sua volta.

Só então percebem que pisam em solo molhado. Só então sentem o forte odor de combustível espalhado por todos os cômodos… Tarde demais.

Joshua abre os braços como se saudasse a vida. Abraçando a morte. O sargento dá a ordem para todos saírem rápido de dentro da casa. Toda ação gera uma reação contraria de igual ou maior intensidade. Joshua de braços abertos empunhando o cigarro em uma das mãos e a 44 na outra, os policiais correndo desesperados. Os dedos nervosos dos atiradores puxam o gatilho.

Joshua tem o peito atingido. A pistola cai de um lado e a ponta do cigarro de outro. A brasa beija o combustível. O fogo é imediato. Rapidamente as chamas se alastram pelos cômodos. Os moveis se desmancham junto às carnes ainda vivas… Do pó ao pó.

Os gritos são abafados pelo ensurdecedor som do fogo furioso. Tudo se mescla numa terrível sinfonia.

A casa queima. A maquiagem se desmancha. O rosto pintado se desfaz. A adultera abraçada ao corpo do amante. As chamas os unem para sempre. Difícil demais separar pó de pó.

Os retratos espalhados vão se tornando cinzas. Retratos de um passado feliz. Joshua, sua amada esposa e sua doce e inocente filha. Retratos de um passado se tornam o que aquela felicidade ali estampada já se tornou há muito tempo… Apenas cinzas.