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Um Amor Imortal.

Por.: Márcio Renato Bordin

 

-Oi Baby. Cheguei!

Ele a ouve sussurrar em seu ouvido. Sente os lábios quentes e úmidos tocarem seu rosto em um gostoso beijo de bom dia. Ainda sonolento, com os olhos cerrados, ele se vira esperando sentir o sabor daqueles lábios junto aos seus. Sente sua boca beijada pelo vento gélido adentrando ao quarto. Ele abre os olhos, está sozinho. Pela janela aberta o vento sopra ocupando todo o quarto. Ele não está totalmente só. Dividiu a cama com uma velha amiga, a quase vazia garrafa de whisky, sua amiga inseparável, companheira de todas as noites solitárias, amiga que por muitas vezes o fez esquecer que estava só.

Ele se senta na cama, espreguiçando-se. Olha por alguns segundos em cima do criado-mudo um retrato amarelado pelo tempo. Uma bela jovem, a imagem de um anjo eternizado em papel. Dona do mais belo sorriso, um sorriso encantador que os anos não amarelaram.

Ele leva o braço em direção ao retrato e, com as pontas dos dedos acaricia o rosto intocável, de um anjo estampado em um retrato.

-Por que eu nunca a procurei?

Mais uma vez a pergunta ecoa em sua cabeça. A mesma pergunta que seu coração lhe repetia todas as manhas.

-Por que eu nunca a procurei?

E como em todas as manhas, a resposta surgia quando seus olhos passeavam pelo quarto. Espalhados pelos cantos, tantos cadernos jogados. Dentre os diplomas e troféus, tantas paginas rabiscadas, estórias apenas começadas, outras, muitas outras já consagradas, conhecidas, filmadas. Aquela garota do retrato por tantas atrizes já fora interpretada, porem nenhuma delas conseguiu transpassar em tela a beleza pura, a simplicidade, carinho e sensualidade que aquela doce figura transmitia à ele, um velho escritor.

Aquela jovem estava em todos os seus livros, em seus contos, em seus personagens… Em seus sonhos.

Talvez ele pudesse tê-la procurado, conhecido-a pessoalmente. Talvez todos os seus sonhos se tornassem realidade. Talvez vivessem juntos uma bela história de amor.

Mas o que seria de seus personagens?

O que seria da magia que os une?

Qual a influencia que a rotina teria sobre esse amor tão belo que ambos alimentaram um pelo outro?

Juntos com os desejos revelados, revelar-se-iam também os defeitos e, a magia talvez se extinguisse com o tempo. Sendo assim, escolheram viverem a distancia esse sentimento tão belo. Amaram-se em sonhos, em contos, em prosa, em verso…

Muitos anos se passaram. Ambos viveram as suas vidas, envelheceram. Ele se tornou um solitário e consagrado autor da literatura fantástica. Ela, uma romancista renomada, ocupou seu lugar de honra na academia para o qual já nascera predestinada. Hoje passa os dias em sua fazenda do outro lado do país. Quando não está escrevendo, está com seus netos reunidos ao seu redor e contando uma de suas estórias de amor, todas em segredo dedicadas à ele.

Ambos envelheceram, mas guardaram nas lembranças a imagem jovial, sonhadora e apaixonada pela vida que ambos tinham quando se conheceram. Para ele, ela continuava bela e jovem como naquele antigo retrato sobre o criado-mudo. Inspirando-o em muitas outras personagens que ainda virão, com toda sua sensualidade de mulher e sua delicadeza de menina.

Muitos de seus amigos e admiradores já questionaram-no sobre a real existência de tão doce mulher. Sua resposta é imediata. Ela existe e sempre vai existir, eternizada em um retrato… Gravado em seu coração.